Há um medo silencioso
que não nasce da tristeza,
mas da lembrança
de quando a alegria
também soube partir.
Depois de certas quedas,
até a felicidade chega
pedindo licença.
O coração olha desconfiado
para tudo que parece bonito,
como quem pergunta baixinho:
será que desta vez permanece?
Há sorrisos
que demoram a se abrir.
Há abraços
que encontram portas entreabertas.
Há caminhos novos
que ainda assustam
porque lembram antigos tropeços.
Mas recomeçar
não é esquecer a dor.
É apenas permitir
que ela não decida sozinha
o destino dos próximos dias.
A vida, às vezes,
volta com passos leves,
sem prometer eternidade,
sem apagar cicatrizes,
sem exigir pressa.
E talvez ser feliz de novo
não seja confiar cegamente
em tudo que chega.
Talvez seja apenas
abrir uma pequena fresta
e deixar que a alegria
se aproxime devagar,
sem assustar
o coração.
