Transformações

As estações que existem dentro de nós

Costumamos pensar nas estações como algo que acontece do lado de fora.

O verão que aquece os dias.

O outono que colore as árvores.

O inverno que desacelera o mundo.

A primavera que devolve flores aos jardins.

Mas, com o tempo, descobrimos que as estações também acontecem dentro de nós.

Há períodos em que somos primavera.

Tudo parece possível.

Os sonhos encontram espaço para crescer.

As ideias florescem.

O coração se abre para o novo sem medo do que poderá encontrar pelo caminho.

São épocas de expansão.

De esperança.

De recomeços.

Mas ninguém permanece em primavera para sempre.

Há momentos em que o verão chega.

E com ele a intensidade.

Os dias cheios.

As emoções à flor da pele.

O desejo de viver mais, sentir mais, aproveitar mais.

É quando acreditamos que o tempo é abundante e que a felicidade pode durar indefinidamente.

Até que, inevitavelmente, o outono aparece.

E talvez seja a estação mais incompreendida de todas.

Porque o outono não é o fim.

É apenas o momento em que aprendemos a deixar ir.

Folhas não caem porque a árvore fracassou.

Caem porque fazem parte do ciclo.

Assim também acontece conosco.

Há amizades que cumprem seu tempo.

Há sonhos que deixam de nos servir.

Há versões de nós que precisam partir para que outras possam nascer.

E, mesmo assim, resistimos.

Tentamos segurar o que já está pedindo despedida.

Como se aceitar as mudanças fosse uma forma de perder.

Mas não é.

Muitas vezes, amadurecer significa justamente aprender a soltar.

Depois vem o inverno.

A estação que quase ninguém deseja.

Aquela que nos encontra nas ausências.

Nos lutos.

Nas perguntas sem resposta.

Nos períodos em que nada parece florescer.

O inverno nos assusta porque nos faz sentir vulneráveis.

Mas ele também nos ensina algo precioso.

Nem toda transformação acontece à vista dos olhos.

Enquanto a paisagem parece adormecida, a vida continua trabalhando em silêncio.

As raízes continuam crescendo.

A terra continua preparando o que virá.

E nós também.

Há aprendizados que só acontecem nos dias difíceis.

Há forças que só descobrimos quando somos obrigados a continuar apesar do frio.

E então, quando menos esperamos, a primavera retorna.

Não a mesma de antes.

Porque nós também já não somos os mesmos.

Carregamos cicatrizes.

Memórias.

Perdas.

Mas carregamos também uma compreensão que não existia antes.

A de que nenhuma estação é permanente.

Nem os dias mais luminosos.

Nem as noites mais longas.

Tudo passa.

Tudo se transforma.

Tudo encontra um novo lugar dentro de nós.

Talvez a sabedoria não esteja em tentar viver eternamente na primavera.

Talvez ela esteja em aceitar cada estação quando chega.

Em compreender que há beleza nas flores, mas também nas folhas que caem.

Na abundância dos verões, mas também nos silêncios do inverno.

Porque a vida não nos pede que floresçamos o tempo todo.

Às vezes, ela apenas nos pede que respeitemos os nossos ciclos.

E tenhamos paciência para esperar a próxima primavera.

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