Transformações

A distância entre quem fomos e quem somos

Existe uma distância silenciosa entre quem se foi e quem se tornou.

Ela não pode ser medida em quilômetros.

Nem em calendários.

Nem em fotografias guardadas numa gaveta.

É uma distância feita de experiências.

De escolhas.

De perdas.

De reencontros.

De tudo aquilo que, pouco a pouco, modifica a forma de olhar o mundo.

O tempo raramente transforma alguém de uma só vez.

Ele trabalha em silêncio.

Como a água que molda a pedra.

Como as estações que alteram a paisagem sem pedir permissão.

Um dia, sem aviso, surge a percepção de que algo mudou.

Aquilo que antes parecia essencial já não ocupa o mesmo lugar.

Aquilo que causava medo já não assusta tanto.

Aquilo que parecia impossível tornou-se apenas parte da história.

Há sonhos que acompanham uma vida inteira.

Outros ficam pelo caminho.

Não por fracasso.

Mas porque algumas versões de futuro deixam de fazer sentido à medida que a jornada avança.

E isso também é uma forma de crescimento.

Existe uma tendência de imaginar o passado como um lugar fixo.

Mas ele não permanece imóvel.

Cada lembrança é revisitada por alguém diferente daquele que a viveu.

Os acontecimentos são os mesmos.

O olhar é outro.

E, por isso, a história muda.

Talvez a maturidade não esteja em tornar-se alguém completamente novo.

Talvez esteja em compreender que a vida é feita de muitas versões coexistindo sob o mesmo nome.

Aquela que acreditava.

Aquela que duvidou.

Aquela que caiu.

Aquela que encontrou forças para continuar.

Nenhuma desaparece por completo.

Todas deixam marcas.

Todas ajudam a construir a pessoa que existe hoje.

Por isso, a distância entre quem se foi e quem se é não precisa ser vista como uma separação.

Pode ser vista como uma travessia.

Uma ponte construída por dias comuns e acontecimentos extraordinários.

Por alegrias que permaneceram.

E por dores que ensinaram o que os dias tranquilos jamais poderiam ensinar.

No fim, talvez a verdadeira transformação não esteja em abandonar quem se foi.

Mas em reconhecer que cada etapa teve a sua importância.

Porque ninguém chega ao presente sem carregar consigo um pouco de todos os lugares por onde passou.

E talvez seja justamente isso que torna cada história única:

a soma invisível de todas as pessoas que alguém precisou ser

para tornar-se quem é.

Deixe um comentário