Há quem pertença
a uma única terra.
E há quem carregue
mais de um horizonte
dentro do peito.
Para essas pessoas,
a saudade aprende
a falar dois idiomas.
O coração divide-se
entre paisagens diferentes,
entre ruas que ficaram para trás
e caminhos que se tornaram lar.
Uma pátria vive na memória.
Tem o cheiro da infância,
o sabor das receitas antigas,
as vozes que ajudaram a construir
os primeiros sonhos.
É a terra das raízes.
Aquela que permanece
mesmo quando os anos passam
e os mapas mudam.
A outra pátria
nasce devagar.
No começo é apenas um lugar estranho.
Depois torna-se abrigo.
Recebe os passos,
os desafios,
as conquistas,
as lágrimas
e os recomeços.
É a terra dos galhos.
Aquela onde a vida continua crescendo.
Durante muito tempo,
parece necessário escolher.
Como se o amor por uma terra
diminuísse o amor pela outra.
Mas a alma conhece verdades
que os mapas ignoram.
O coração não trabalha
com fronteiras.
É capaz de amar
mais de um céu,
mais de uma língua,
mais de uma casa.
Há dias
em que a saudade aponta para um lado.
Há dias
em que a gratidão aponta para o outro.
E ambos convivem
como rios que seguem juntos
até encontrar o mar.
Quem vive entre duas pátrias
aprende a reconhecer beleza
nas partidas e nos retornos.
Aprende que pertencer
nem sempre significa permanecer.
E que é possível sentir-se estrangeiro
e em casa
ao mesmo tempo.
Com o passar dos anos,
as duas terras deixam de disputar espaço.
Passam a habitar
o mesmo coração.
Uma guarda as raízes.
A outra oferece os frutos.
Uma conta a história
de quem fomos.
A outra participa
da pessoa que nos tornamos.
E então compreende-se:
algumas almas não nasceram
para pertencer a um único lugar.
Nasceram para construir pontes.
Para levar consigo
um pedaço de cada mundo.
Para descobrir que a verdadeira pátria
não está apenas na terra onde se nasceu,
nem apenas na terra onde se vive.
Está em tudo aquilo
que o amor transformou em lar.
E esse lugar,
sem fronteiras e sem mapas,
viaja para sempre
dentro da alma.
