Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

As duas pátrias da alma

Há quem pertença
a uma única terra.

E há quem carregue
mais de um horizonte
dentro do peito.

Para essas pessoas,

a saudade aprende
a falar dois idiomas.

O coração divide-se
entre paisagens diferentes,

entre ruas que ficaram para trás
e caminhos que se tornaram lar.

Uma pátria vive na memória.

Tem o cheiro da infância,
o sabor das receitas antigas,
as vozes que ajudaram a construir
os primeiros sonhos.

É a terra das raízes.

Aquela que permanece
mesmo quando os anos passam
e os mapas mudam.

A outra pátria

nasce devagar.

No começo é apenas um lugar estranho.

Depois torna-se abrigo.

Recebe os passos,
os desafios,
as conquistas,
as lágrimas
e os recomeços.

É a terra dos galhos.

Aquela onde a vida continua crescendo.

Durante muito tempo,

parece necessário escolher.

Como se o amor por uma terra
diminuísse o amor pela outra.

Mas a alma conhece verdades
que os mapas ignoram.

O coração não trabalha
com fronteiras.

É capaz de amar
mais de um céu,
mais de uma língua,
mais de uma casa.

Há dias
em que a saudade aponta para um lado.

Há dias
em que a gratidão aponta para o outro.

E ambos convivem
como rios que seguem juntos
até encontrar o mar.

Quem vive entre duas pátrias

aprende a reconhecer beleza
nas partidas e nos retornos.

Aprende que pertencer
nem sempre significa permanecer.

E que é possível sentir-se estrangeiro
e em casa
ao mesmo tempo.

Com o passar dos anos,

as duas terras deixam de disputar espaço.

Passam a habitar
o mesmo coração.

Uma guarda as raízes.

A outra oferece os frutos.

Uma conta a história
de quem fomos.

A outra participa
da pessoa que nos tornamos.

E então compreende-se:

algumas almas não nasceram
para pertencer a um único lugar.

Nasceram para construir pontes.

Para levar consigo
um pedaço de cada mundo.

Para descobrir que a verdadeira pátria

não está apenas na terra onde se nasceu,
nem apenas na terra onde se vive.

Está em tudo aquilo
que o amor transformou em lar.

E esse lugar,

sem fronteiras e sem mapas,

viaja para sempre
dentro da alma.

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