Há encontros
que não começam no primeiro olhar.
Começam antes.
Em algum lugar
que a memória não alcança,
mas o coração parece recordar.
São pessoas que chegam
como quem retorna.
Sem anunciar a chegada.
Sem pedir licença.
E, de repente,
o que era desconhecido
parece familiar.
As palavras encontram abrigo.
Os silêncios não causam desconforto.
A presença repousa
como uma canção antiga
que ninguém sabia
que ainda sabia cantar.
Há almas
que se reconhecem na alegria.
Outras,
na dor.
Algumas se encontram
nos sonhos compartilhados.
Outras,
nas cicatrizes semelhantes.
Mas todas carregam
a estranha sensação
de que aquele encontro
não nasceu do acaso.
Não é preciso explicar.
Nem convencer.
Nem construir pontes apressadas.
Elas surgem sozinhas.
Como rios que se encontram
depois de longas jornadas.
Como estrelas distantes
que brilham na mesma constelação
sem jamais terem combinado.
As almas que se reconhecem
não prometem eternidade.
Nem sempre permanecem.
Algumas atravessam apenas
uma estação da vida.
Outras caminham por décadas.
Mas todas deixam algo.
Uma luz.
Uma aprendizagem.
Uma mudança quase invisível
na forma de olhar o mundo.
Porque certos encontros
não acontecem para preencher vazios.
Acontecem para despertar lembranças
daquilo que já existia dentro de nós.
E quando os caminhos se cruzam,
algo silencioso floresce.
Uma confiança sem motivo.
Uma paz sem explicação.
Uma certeza sem palavras.
Como se uma alma dissesse à outra:
“Eu não conheço toda a tua história.
Mas, de alguma forma,
reconheço o teu coração.”
E talvez seja essa
uma das maiores belezas da existência:
descobrir que, em meio a milhões de caminhos,
existem almas que se encontram
e se reconhecem
como viajantes antigos
que finalmente voltaram a compartilhar
o mesmo horizonte.
