O céu nunca pertenceu
aos pássaros.
Ainda assim,
eles o atravessam.
O jardim nunca pertenceu
às borboletas.
Ainda assim,
elas o visitam.
Talvez o amor
guarde o mesmo segredo.
Chega sem contrato.
Permanece sem correntes.
Parte sem pedir licença.
E nada disso
o torna menos verdadeiro.
Há quem confunda amor
com permanência.
Como se o afeto
pudesse ser medido
pela duração.
Como se o coração
assinasse promessas
que o tempo jamais pudesse alterar.
Mas a vida não conhece garantias.
Conhece encontros.
Instantes.
Escolhas.
Há pessoas
que caminham ao nosso lado
por toda uma existência.
Outras,
por uma breve estação.
E ambas podem deixar
a mesma profundidade de marca.
Amar sem possuir
é compreender
que ninguém nos pertence.
Nem os filhos.
Nem os amigos.
Nem aqueles
que juraram permanecer.
Cada alma
é uma viajante.
Cada coração
carrega mapas
que pertencem apenas a si.
Por isso,
o amor mais generoso
não pergunta:
“Até quando ficará?”
Pergunta apenas:
“Como posso tornar melhor
o tempo que compartilhamos?”
E quando chega a hora
de abrir as mãos,
não porque deixou de amar,
mas porque compreendeu,
descobre que o afeto verdadeiro
não mora na posse.
Mora na gratidão.
Na beleza do encontro.
Na sorte de ter dividido
um pedaço do caminho
com alguém
que jamais poderia ser seu,
mas que, por algum tempo,
escolheu caminhar ao seu lado.
