Há um rumor de tempestade
nas coisas que o ciúme toca.
Uma palavra simples
torna-se enigma.
Um sorriso distante
transforma-se em pergunta.
E o que era apenas vento
passa a parecer despedida.
O ciúme não nasce dos olhos,
mas dos abismos escondidos
que cada coração carrega.
É o medo vestido de certeza.
A dúvida fingindo saber.
Olha para a flor
e já imagina o inverno.
Olha para o caminho
e já prevê a partida.
Por isso sofre antes da hora,
chora antes da perda,
e fecha as mãos
sobre aquilo que desejava apenas abraçar.
Mas ninguém guarda a luz
trancando as janelas.
Ninguém conserva o mar
aprisionando as ondas.
O amor pede coragem,
não vigilância.
Pede presença,
não posse.
E quando a confiança floresce,
o ciúme torna-se pequeno,
como uma sombra ao entardecer
que pouco a pouco se dissolve
na imensidão da noite.
Pois amar,
talvez seja apenas isto:
Aceitar que o outro é livre
e ainda assim escolher,
todos os dias,
permanecer.
