Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

Cíume

Há um rumor de tempestade
nas coisas que o ciúme toca.

Uma palavra simples
torna-se enigma.

Um sorriso distante
transforma-se em pergunta.

E o que era apenas vento
passa a parecer despedida.

O ciúme não nasce dos olhos,
mas dos abismos escondidos
que cada coração carrega.

É o medo vestido de certeza.
A dúvida fingindo saber.

Olha para a flor
e já imagina o inverno.
Olha para o caminho
e já prevê a partida.

Por isso sofre antes da hora,
chora antes da perda,
e fecha as mãos
sobre aquilo que desejava apenas abraçar.

Mas ninguém guarda a luz
trancando as janelas.

Ninguém conserva o mar
aprisionando as ondas.

O amor pede coragem,
não vigilância.

Pede presença,
não posse.

E quando a confiança floresce,
o ciúme torna-se pequeno,
como uma sombra ao entardecer
que pouco a pouco se dissolve
na imensidão da noite.

Pois amar,
talvez seja apenas isto:

Aceitar que o outro é livre
e ainda assim escolher,
todos os dias,
permanecer.

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