Há dores que não encontram palavras.
Perder uma criança na família é uma delas.
Não é apenas atravessar o luto,
é confrontar a própria ideia de continuidade.
Uma vida tão pequena,
e ainda assim capaz de ocupar universos inteiros.
Uma história que começava
interrompida antes de aprender o tamanho do próprio nome.
Um futuro inteiro que deixa de acontecer,
aniversários que não virão,
risadas que não amadurecerão,
histórias que permanecerão apenas possibilidade.
É como se o tempo parasse por um instante
e o mundo, sem aviso, aprendesse o que é vazio.
Não há lógica que console.
Não há ordem natural que faça sentido.
A expectativa de proteção se inverte.
O ciclo se rompe.
O que deveria florescer retorna ao mistério.
O impacto não é linear.
Espalha-se em camadas:
na mesa onde falta um lugar,
no quarto que guarda silêncio,
nos adultos que, de repente, não sabem como sustentar o próprio chão.
Fica o silêncio,
denso, profundo, quase sagrado.
E dentro dele, memórias que brilham como pequenas estrelas.
Passos que ecoam na lembrança.
Um amor que não diminui,
não termina,
não se apaga.
Talvez não se siga da mesma forma.
Porque esse tipo de ausência não pede superação,
pede integração.
Passa a fazer parte da paisagem interna,
como uma montanha que ninguém escolheu escalar,
mas que redefine o horizonte.
Perder uma criança é tocar o limite do compreensível.
É reconhecer que há dimensões da existência
que escapam à razão.
E ainda assim, no centro da dor,
permanece o amor,
não como consolo fácil,
mas como testemunho silencioso
de que aquela vida, ainda que breve,
foi real, foi inteira,
foi eternamente significativa.
Porque quando o céu fica mais silencioso,
não é ausência de luz,
é uma estrela que aprendemos a procurar
de outra forma.

😥😪😓
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