Há quem viva se doando
não por obrigação,
mas por amor.
Gente que acorda antes da dor,
que adia o próprio descanso,
que disfarça o cansaço
para que o outro sinta paz.
Que enche a casa de presença,
mas vive esquecida nos cantos
do próprio coração.
Há quem aprenda a existir
para os outros:
os filhos, o parceiro,
a rotina que nunca pede licença.
E nesse existir inteiro,
se perde um pouco a cada dia,
sem perceber.
A ingratidão não dói de uma vez só
ela corrói aos poucos.
É o olhar que não repara,
é o gesto que não volta,
é o silêncio onde cabia um “obrigado”.
Ela se disfarça de costume,
de naturalidade.
Como se o amor de quem cuida
fosse uma dívida eterna,
e não um dom raro.
E mesmo assim,
quem se doa continua.
Continua porque sente,
porque aprendeu que amor
é verbo que não sabe descansar.
Mas há um ponto em que o corpo grita,
em que a alma pede abrigo.
Porque ninguém floresce
se é regado apenas por ingratidão.
Um dia, o coração entende:
não é egoísmo querer reconhecimento
é necessidade.
Quem dá tudo,
também precisa ser visto,
acolhido,
lembrado.
Porque amor sem retorno
vira peso.
E até o mais forte
cansa de carregar o mundo
sozinho.

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