Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

A ingratidão

Há quem viva se doando

não por obrigação,

mas por amor.

Gente que acorda antes da dor,

que adia o próprio descanso,

que disfarça o cansaço

para que o outro sinta paz.

Que enche a casa de presença,

mas vive esquecida nos cantos

do próprio coração.

Há quem aprenda a existir

para os outros:

os filhos, o parceiro,

a rotina que nunca pede licença.

E nesse existir inteiro,

se perde um pouco a cada dia,

sem perceber.

A ingratidão não dói de uma vez só

ela corrói aos poucos.

É o olhar que não repara,

é o gesto que não volta,

é o silêncio onde cabia um “obrigado”.

Ela se disfarça de costume,

de naturalidade.

Como se o amor de quem cuida

fosse uma dívida eterna,

e não um dom raro.

E mesmo assim,

quem se doa continua.

Continua porque sente,

porque aprendeu que amor

é verbo que não sabe descansar.

Mas há um ponto em que o corpo grita,

em que a alma pede abrigo.

Porque ninguém floresce

se é regado apenas por ingratidão.

Um dia, o coração entende:

não é egoísmo querer reconhecimento

é necessidade.

Quem dá tudo,

também precisa ser visto,

acolhido,

lembrado.

Porque amor sem retorno

vira peso.

E até o mais forte

cansa de carregar o mundo

sozinho.

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