Há dias em que o corpo se cala antes da boca.
Dias em que a alma já entendeu tudo,
mas decide não dizer mais nada.
Não por frieza,
nem por orgulho.
Mas porque o cansaço já ultrapassou o ponto das palavras.
E, nesse ponto, o silêncio se torna refúgio.
Escolha.
Fronteira.
Quando o silêncio chega assim — sem briga, sem drama
é sinal de que algo muito interno mudou.
Não se trata mais de esperar mudanças no outro.
Trata-se de finalmente começar a escutar o que o próprio coração vem sussurrando há tempos.
O silêncio, então, deixa de ser ausência.
Vira presença plena de si.
Vira o espaço onde se percebe o quanto se doou,
o quanto se segurou sozinha,
o quanto foi esquecida mesmo enquanto sustentava tudo.
Nesse tipo de silêncio,
não há mágoa escancarada.
Há lucidez.
A percepção dolorosa de que o afeto deixou de ser compartilhado,
e passou a ser exigido como obrigação.
Quando o silêncio fala mais alto,
ele revela tudo o que as palavras não conseguiram traduzir:
a decepção, a sobrecarga,
o esgotamento de tentar manter um vínculo que só respira porque alguém insiste.
É nesse silêncio que nasce a coragem.
Não a coragem barulhenta de quem enfrenta,
mas a coragem serena de quem se recolhe para não se perder mais.
Às vezes, o primeiro passo não é partir.
É parar de responder.
É deixar que o vazio mostre aquilo que o outro se recusava a enxergar:
que há um limite entre o amor e o abandono disfarçado de rotina.
O dia em que o silêncio falou mais alto
foi o mesmo em que o coração, pela primeira vez, se escolheu.
