Gratidão

Coisas que não se via

Demorou-se a perceber

que o simples

é onde tudo habita.

Não nos grandes gestos,

mas no que se repete sem alarde.

O cheiro de um travesseiro limpo

ao fim de um dia difícil.

A comida que aquece mais que o estômago.

O riso que escapa, mesmo sem motivo.

O olhar que compreende

sem precisar traduzir.

Por muito tempo, acreditou-se

que a vida era espetáculo.

Algo que só valia quando aplaudido,

quando compartilhado,

quando marcava presença no mundo.

Mas ela é ritual.

É retorno.

É o ato de estar.

De cuidar do que parece pequeno

mas, sem o qual, tudo desmorona.

A vida é o andar descalço na casa.

É o silêncio entre palavras.

É a lembrança do que continua

mesmo quando tudo muda.

E reconhecer isso

não é resignar-se

é libertar-se.

Porque viver com gratidão

é recusar o peso da falta

e escolher a leveza do que já é.

Menos pressa.

Mais presença.

Menos busca.

Mais consciência de que

a vida está acontecendo.

Agora.

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