Nem todo abraço vem de braços.
Alguns chegam em silêncio
sem forma definida,
mas com um poder imenso de acolher.
Há abraços que vêm em forma de encontros inesperados,
de uma conversa leve num dia difícil,
de uma risada que escapa quando a alma já nem lembrava do riso.
Há abraços que moram no cheiro do bolo que lembra infância,
ou no som de uma música que parece saber exatamente onde dói.
O tempo, mesmo quando parece arrastar-se sem piedade,
carrega surpresas que a gente só entende depois.
Ele se disfarça de rotina, de espera, de saudade…
mas, no meio do caminho, vai nos oferecendo consolo.
De repente, sem que a gente perceba,
ele traz gente que sabe ouvir,
palavras que aquecem,
momentos que dizem, sem esforço:
“Você não está só.”
E o coração, que já estava encolhido há tanto tempo,
começa a se abrir devagar — como quem volta a confiar.
Não porque tudo melhorou de uma hora para outra,
mas porque um abraço chegou.
Mesmo que sem braços.
Às vezes, o abraço mais bonito
é o tempo passando,
e deixando em nós aquilo que antes faltava:
a calma, a presença, a paz.
E aí a gente entende:
o tempo também abraça.
Com delicadeza.
Com cuidado.
Com amor disfarçado de vida que segue.
