Joe Goldberg, protagonista da série “Você”, não é fácil de definir.
À primeira vista, ele parece um romântico à moda antiga.
Sensível, educado, culto, um amante dos livros e das sutilezas.
Mas conforme a narrativa avança, vamos percebendo que esse encanto vem acompanhado de comportamentos profundamente problemáticos.
Joe é um personagem que desperta sentimentos ambíguos.
Ele age com empatia seletiva, protege quem idealiza, mas invade fronteiras, ultrapassa limites e justifica atitudes questionáveis como gestos de amor.
O mais interessante — e incômodo — é que a série nos coloca dentro da mente dele.
O espectador não é apenas um observador externo:
é convidado a ver o mundo pelos olhos de Joe.
E é aí que mora a força da série.
Ela não nos diz se Joe é um vilão ou uma vítima.
Ela nos mostra como sua visão distorcida da realidade molda suas ações.
Como ele racionaliza o que faz, como se “proteger quem ama” justificasse invadir, manipular ou até eliminar o que ele considera ameaça.
O ponto mais perturbador é que Joe acredita estar fazendo o certo.
E, por instantes, nós quase acreditamos também.
Essa é a provocação mais inteligente da série:
Nos fazer questionar até que ponto as relações baseadas em controle e obsessão podem ser confundidas com afeto.
Joe apresenta traços de psicopatia:
Falta de remorso, manipulação calculada, dificuldade de empatia real.
Mas não é um monstro caricato.
Ele é humano.
Complexo.
E justamente por isso, tão inquietante.
A reflexão que fica vai além do personagem:
Como sociedade, muitas vezes romantizamos comportamentos tóxicos em nome do amor.
Confundimos controle com cuidado, ciúme com zelo, possessividade com paixão.
A série não nos entrega uma resposta pronta.
Ela convida a olhar mais de perto para essas dinâmicas.
Nos convida a perceber como a narrativa que alguém cria sobre si mesmo pode ser sedutora — mesmo quando esconde atitudes destrutivas.
No fim, Joe Goldberg é um espelho distorcido.
Ele nos obriga a refletir não só sobre relações abusivas, mas sobre o quanto podemos ser facilmente levados por versões bem contadas da realidade.
“Você” não é sobre mocinhos ou vilões.
É sobre os limites tênues entre amor, obsessão e poder.
E sobre como é essencial olhar além da superfície.

Fico-lhe grato, Bia Mundal, pela visita ao UAÍMA. A Casa é sua. Aproveito e envio a minha admiração pela leveza desta sua Página – Sinfonia de Palavras.
Um abraço.
Darlan
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Olá, Darlan!
Que mensagem bonita, muito obrigada pelo carinho. Fico imensamente feliz em saber que a visita ao UAÍMA foi bem recebida. Palavras como as suas dão ainda mais sentido ao que compartilho na Sinfonia de Palavras.
Recebo sua admiração com gratidão e retribuo com respeito e afeto.
Um abraço fraterno,
Bia Mundal
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