Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

O mundo anda mal

O mundo anda mal.

Não é exagero

é sensação que atravessa a pele

quando abrimos as janelas

e as manchetes nos encaram.

Anda mal de maldades calculadas,

de violências que não tremem,

de palavras que ferem mais do que lâminas.

Há uma frieza crescendo

em corredores digitais,

em decisões apressadas,

em olhares que já não se demoram na dor do outro.

O mundo anda mal

quando a crueldade vira espetáculo,

quando a mentira ganha palco,

quando a vida perde valor

em troca de poder.

Assusta perceber

como o horror se repete

até quase parecer normal.

E nada é mais perigoso

do que se acostumar.

Há mães chorando silêncios,

há crianças aprendendo medo cedo demais,

há pessoas desaparecendo

dentro da própria solidão.

O mundo anda mal

quando a indiferença pesa mais que a compaixão,

quando a pressa atropela a empatia,

quando o ego fala mais alto que a consciência.

E ainda assim

é preciso dizer:

não podemos deixar que a maldade

nos transforme no que condenamos.

Porque o mal contamina

quando nos rouba a sensibilidade.

Quando nos faz endurecer.

Quando nos convence de que sentir

é fraqueza.

Resistir, então,

não é gritar mais alto.

É não perder a capacidade de chorar.

É proteger a delicadeza.

É escolher não compartilhar ódio.

É continuar acreditando que cada gesto importa.

O mundo anda mal

sim.

Mas cada vez que alguém escolhe a ética

em vez da vantagem,

a verdade em vez da conveniência,

a empatia em vez do julgamento

algo se equilibra.

Talvez não salvemos o mundo inteiro.

Mas salvamos um pedaço dele

toda vez que recusamos

participar da escuridão.

E, às vezes,

é assim que a luz começa.

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