O mundo anda mal.
Não é exagero
é sensação que atravessa a pele
quando abrimos as janelas
e as manchetes nos encaram.
Anda mal de maldades calculadas,
de violências que não tremem,
de palavras que ferem mais do que lâminas.
Há uma frieza crescendo
em corredores digitais,
em decisões apressadas,
em olhares que já não se demoram na dor do outro.
O mundo anda mal
quando a crueldade vira espetáculo,
quando a mentira ganha palco,
quando a vida perde valor
em troca de poder.
Assusta perceber
como o horror se repete
até quase parecer normal.
E nada é mais perigoso
do que se acostumar.
Há mães chorando silêncios,
há crianças aprendendo medo cedo demais,
há pessoas desaparecendo
dentro da própria solidão.
O mundo anda mal
quando a indiferença pesa mais que a compaixão,
quando a pressa atropela a empatia,
quando o ego fala mais alto que a consciência.
E ainda assim
é preciso dizer:
não podemos deixar que a maldade
nos transforme no que condenamos.
Porque o mal contamina
quando nos rouba a sensibilidade.
Quando nos faz endurecer.
Quando nos convence de que sentir
é fraqueza.
Resistir, então,
não é gritar mais alto.
É não perder a capacidade de chorar.
É proteger a delicadeza.
É escolher não compartilhar ódio.
É continuar acreditando que cada gesto importa.
O mundo anda mal
sim.
Mas cada vez que alguém escolhe a ética
em vez da vantagem,
a verdade em vez da conveniência,
a empatia em vez do julgamento
algo se equilibra.
Talvez não salvemos o mundo inteiro.
Mas salvamos um pedaço dele
toda vez que recusamos
participar da escuridão.
E, às vezes,
é assim que a luz começa.
