Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

Amigos ou plateia?

Há pessoas que se aproximam

como quem oferece abrigo

mas trazem vento.

Chamam de amizade

o que é curiosidade.

Chamam de cuidado

o que é controle.

Chamam de conselho

o que, no fundo,

é incentivo ao erro que entretém.

Existem grupos que riem alto,

que ocupam mesas,

que preenchem fotos

mas esvaziam você.

Espalham sua vida como notícia fresca.

Repetem seus segredos com tempero.

Observam seus tropeços

como quem assiste a um episódio novo.

E você começa a se perguntar:

isso é amizade

ou audiência?

Amigo não se alimenta da sua vulnerabilidade.

Não compartilha o que você confiou em silêncio.

Não incentiva o que te prejudica

só para manter o movimento da conversa.

Há quem precise que você esteja confuso

para se sentir superior.

Há quem precise que você erre

para continuar relevante.

Há quem precise saber tudo

porque vive do que acontece com os outros.

Mas amizade de verdade

não invade, respeita.

Não expõe, protege.

Não empurra para o abismo, puxa de volta.

Vida social não é barulho.

Não é agenda cheia.

Não é grupo ativo.

Vida social saudável

é poder descansar na presença do outro.

É saber que sua ausência

não vira pauta.

É confiar que seu segredo

não vira espetáculo.

Porque solidão não é estar só.

É estar cercado

e ainda assim

precisar se vigiar.

Talvez seja doloroso admitir

que nem todo mundo que chama você de amigo

é casa.

Mas é libertador escolher

não ser palco.

Não ser fonte de assunto.

Não ser combustível para curiosidade alheia.

Amizade não é plateia.

É abrigo.

E você não nasceu

para ser história contada por quem

nunca soube guardar você.

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