Há pessoas que se aproximam
como quem oferece abrigo
mas trazem vento.
Chamam de amizade
o que é curiosidade.
Chamam de cuidado
o que é controle.
Chamam de conselho
o que, no fundo,
é incentivo ao erro que entretém.
Existem grupos que riem alto,
que ocupam mesas,
que preenchem fotos
mas esvaziam você.
Espalham sua vida como notícia fresca.
Repetem seus segredos com tempero.
Observam seus tropeços
como quem assiste a um episódio novo.
E você começa a se perguntar:
isso é amizade
ou audiência?
Amigo não se alimenta da sua vulnerabilidade.
Não compartilha o que você confiou em silêncio.
Não incentiva o que te prejudica
só para manter o movimento da conversa.
Há quem precise que você esteja confuso
para se sentir superior.
Há quem precise que você erre
para continuar relevante.
Há quem precise saber tudo
porque vive do que acontece com os outros.
Mas amizade de verdade
não invade, respeita.
Não expõe, protege.
Não empurra para o abismo, puxa de volta.
Vida social não é barulho.
Não é agenda cheia.
Não é grupo ativo.
Vida social saudável
é poder descansar na presença do outro.
É saber que sua ausência
não vira pauta.
É confiar que seu segredo
não vira espetáculo.
Porque solidão não é estar só.
É estar cercado
e ainda assim
precisar se vigiar.
Talvez seja doloroso admitir
que nem todo mundo que chama você de amigo
é casa.
Mas é libertador escolher
não ser palco.
Não ser fonte de assunto.
Não ser combustível para curiosidade alheia.
Amizade não é plateia.
É abrigo.
E você não nasceu
para ser história contada por quem
nunca soube guardar você.
