Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

Depois da travessia

Houve um tempo

em que amar era esperar.

Alguns meses

medidos em fronteiras,

carimbos,

e noites que pareciam

não terminar.

Houve casas provisórias,

malas que não se desfaziam,

mensagens lidas no escuro,

e a tentativa insistente

de continuar sendo “nós”

à distância.

Antes disso,

houve anos

de cotidiano partilhado:

corpos habituados,

rotinas simples,

silêncios que já não doíam.

Depois,

a separação não escolhida

ensinou o peso real

do querer ficar.

Vieram meses

em que a ansiedade

ocupava mais espaço

do que o futuro.

Noites longas,

dias suspensos,

a dúvida batendo

sem pedir licença.

Mas o vínculo permaneceu

não por promessa,

e sim por presença insistente

mesmo quando o corpo faltava.

E no meio do cansaço,

uma certeza silenciosa:

amar era escolher o outro,

mesmo quando o mundo dizia espera.

Então,

depois da travessia,

veio o gesto definitivo:

não como fuga,

não como compensação,

mas como escolha.

Casaram.

Não para apagar o esforço,

mas para honrá-lo.

Não porque foi fácil,

mas porque resistiu.

Algumas histórias

não se constroem na urgência,

mas na permanência.

Não no encantamento inicial,

mas na coragem

de atravessar o tempo

sem desistir de ficar.

E quando enfim ficaram,

não foi vitória.

Foi descanso.

E amor,

que sobrevive à espera,

aprende a ficar.

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