Há relações que parecem correntes.
Um lado cobra tudo,
vigia cada gesto,
mede cada palavra
como se o amor fosse uma prova diária
que nunca pode ser suficiente.
O outro aprende a silenciar.
Não por medo de ferir,
mas por tentar sustentar o que ainda resta,
por buscar um espaço onde o diálogo possa nascer,
por refletir em silêncio se vale a pena continuar
antes de uma decisão que não tenha volta.
Mas o silêncio pesa,
e no fundo do coração a verdade se insinua:
quando é preciso calar-se demais para caber,
já não existe mais lugar para ser inteiro.
O mais cruel é a contradição:
quem dita as regras
quebra todas as que impõe.
Quem proíbe
é quem mais transgride.
Quem sufoca
é quem mais exige ar.
Esse jogo não é cuidado,
não é proteção,
não é amor.
Amor não precisa de vigia.
Amor não é uma lista de ordens.
Amor não coloca algemas
enquanto pede liberdade.
Amor é espaço aberto.
É caminho onde dois respiram juntos.
É escolha mútua,
não imposição unilateral.
É reciprocidade,
não cobrança sem retorno.
Há quem confunda posse com presença,
controle com zelo,
prisão com vínculo.
Mas cedo ou tarde,
a balança mostra o desequilíbrio.
E quando a consciência desperta,
o coração entende:
quem ama não sufoca.
Quem ama não vigia.
Quem ama não limita.
Quem ama oferece asas,
e escolhe ficar,
mesmo podendo partir.
