Há dores que não encontram caminho pela voz.
Elas se dissolvem devagar nos ombros tensos,
na garganta que engole mais do que palavras,
no cansaço que insiste, mesmo depois do descanso.
O corpo fala baixinho o que a alma guardou em silêncio.
Carrega o peso das frases que não puderam sair,
das reações contidas por hábito,
das verdades engavetadas para não ferir,
ou para preservar uma paz que nunca foi inteira.
E então surgem as insônias sem explicação.
O ar que parece faltar sem razão.
O coração que dispara no vazio.
Como se algo lá dentro sussurrasse:
“há sentimentos aqui que nunca foram ouvidos.”
O corpo, com sua sabedoria silenciosa, transforma o não dito em sinais.
São dores que ninguém entende,
sintomas que os exames não captam,
uma exaustão que não vem de esforço
mas de tudo aquilo que ficou guardado demais.
Nem toda ferida sangra por fora.
Algumas se escondem nos músculos,
ou na expressão de quem sorri por hábito,
mas já não sente leveza.
O corpo escuta o que foi calado.
E transforma em linguagem tudo aquilo que a boca temeu confessar.
Talvez escutar o próprio corpo seja um gesto de acolhimento.
Um jeito gentil de dizer:
“eu vejo o que doeu em silêncio.”
Porque há dores que não precisam ser gritadas para merecer cuidado.
E há curas que começam assim
quando o que foi silenciado, enfim, é escutado com ternura.
