Às vezes, a vida vira do avesso.
Não com um estrondo
mas com pequenos silêncios que se acumulam.
Relações que terminam.
Planos que desfazem.
Certezas que escorrem pelos dedos.
E, de repente, você não sabe mais quem é.
O que ainda faz sentido.
O que te move.
Ou até se algo ainda te move.
É estranho se olhar no espelho
e não se reconhecer por dentro.
Saber que você sobreviveu à dor,
mas ainda não se reencontrou depois dela.
Mas tudo bem.
Às vezes, o tempo entre quem você era
e quem está se tornando…
é só isso mesmo: um intervalo.
Um espaço sagrado onde nada precisa fazer sentido,
mas tudo está se reorganizando,
ainda que você não veja.
Não se apresse em se definir.
Não se cobre ser inteiro de novo tão rápido.
Às vezes, estar em reconstrução
é o estado mais honesto que existe.
E aos poucos,
você volta a se reconhecer.
Não como antes.
Mas como quem aprendeu com a própria pele
a ser novo em si.
