Refúgios de quem sente demais

Quando o amor machuca e a culpa tenta apagar quem sente demais

Ninguém está preparado para o momento em que alguém amado, doente ou em dor, lança sobre outro a culpa pelo próprio sofrimento.
Não importa o tom da voz. Não importa se vem em raiva ou desespero.
Quando isso acontece, algo se quebra por dentro.

Porque amar é também se tornar vulnerável.
E quando o amor é profundo, o impacto da dor alheia também é.
De repente, quem cuida, quem sente, quem tenta manter tudo de pé — passa a acreditar que falhou.

Acredita que deveria ter feito mais.
Que deveria ter previsto, evitado, salvado.
Se afoga em perguntas sem resposta.
Se enterra em silêncios cheios de culpa.

Mas é preciso lembrar:
Ninguém é culpado por não ser perfeito.
Ninguém é culpado por não conseguir controlar tudo.
Ninguém deveria se anular para manter o outro inteiro.

Mesmo quando o amor é imenso, o respeito pelos próprios limites precisa existir.
Mesmo quando se trata de um filho, de um irmão, de um companheiro — a dor do outro não dá a ninguém o direito de apagar a existência de quem cuida.

Talvez quem está em sofrimento esteja apenas tentando sobreviver.
E despeje onde pode, sem perceber o estrago.
Mas amar não significa aceitar ser o depósito de tudo que o outro sente.

Amar também é lembrar de si.
É saber quando a balança virou peso.
É perceber quando o amor virou cobrança, culpa, ausência de cuidado com quem cuida.

Ninguém veio ao mundo para desaparecer dentro da dor de alguém.
Existe um ponto em que é preciso se olhar, respirar fundo e dizer: eu também importo.

Porque existe exaustão até mesmo no amor.
E ninguém deveria precisar desparecer para ser suficiente.

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