Vivi vinte anos na Noruega.
Dois longos invernos multiplicados por vinte.
Dois longos silêncios, com suas belezas e seus vazios.
A Noruega sempre foi generosa em paisagens.
Montanhas imponentes, trilhas que desafiavam as pernas e aquietavam a mente.
Subir era mais do que um hobby.
Era quase um ritual.
Lá em cima, sozinha com o vento, eu encontrava uma espécie de paz.
Mas nunca uma paz completa.
Era uma trégua, não um pertencimento.
A natureza norueguesa é majestosa, mas distante.
Ela nos permite estar, admirar, respeitar.
Mas nunca me deu a sensação de casa.
Sempre foi como visitar um lugar sagrado, onde é preciso baixar a voz e manter certa distância.
E então veio o Algarve.
Sem cerimônia, sem protocolo.
O Algarve não me pediu silêncio, nem reverência.
Ele me acolheu de um jeito simples, quase despretensioso.
O sol aqui não é só luz.
É abraço.
É presença.
O mar não é muralha, nem desafio.
É convite.
No Algarve, não preciso conquistar a paisagem para me sentir parte dela.
Basta existir.
Basta respirar.
Descobri que há uma diferença entre estar em um lugar bonito e pertencer a um lugar que te reconhece.
A Noruega sempre foi bonita.
O Algarve sempre me reconheceu.
Aqui, o vento não me afasta.
Ele dança comigo.
Aqui, o calor não me agride.
Ele me aquece de dentro para fora.
Não é que eu tenha rejeitado as montanhas.
Elas sempre farão parte de mim.
Mas há uma leveza em caminhar por terras onde você não precisa se esforçar para ser parte do cenário.
No Algarve, eu não sou visitante.
Sou continuidade.
E talvez seja esse o verdadeiro encontro:
não com um lugar, mas com uma parte de mim que aqui acordou.
A natureza, quando nos reconhece, faz isso sem barulho.
A gente simplesmente sente.
E eu senti.
