Às vezes, a gente se doa sem fazer contas. Está ali para o que o outro precisa: escuta, apoio, presença, um ombro, uma palavra, até o silêncio quando é isso que acalma. Fazemos porque sentimos. Porque é natural cuidar de quem gostamos.
E nunca foi sobre esperar reconhecimento. Mas existe um lugar dentro da gente que acredita, lá no fundo, que cuidado gera cuidado. Que quem recebe, uma hora, também irá oferecer. Que há uma troca silenciosa que acontece no tempo certo.
Mas nem sempre é assim.
Vem aquele momento em que você precisa. Está doente, esgotada, atravessando um dia difícil. E, de repente, percebe um vazio no lugar onde esperava um gesto simples: uma pergunta, um “como você está?”, um olhar atento.
E dói. Não porque você queria aplausos por tudo o que já fez. Mas porque, naquele instante, você entende que suas dores, suas necessidades, parecem pequenas ou invisíveis para quem já recebeu tanto de você.
A ingratidão não grita. Ela se manifesta no descaso, na indiferença, no desinteresse disfarçado de normalidade.
E é nessa hora que você percebe: quem se doa demais sem se cuidar, se coloca no risco de ser sempre forte, sempre disponível, sempre “bem resolvido (a)” para os outros. Como se a sua dor não fosse legítima. Como se você não precisasse, também, ser cuidada.
Mas você precisa. Você merece.
E não há culpa nisso.
Talvez a lição seja essa: perceber quem realmente tem espaço para você, não só nas suas alegrias, mas nas suas fragilidades. Aprender a cuidar de si antes de se esvaziar para o mundo. Entender que reciprocidade não se obriga — mas se escolhe com o tempo.
E que amor-próprio também é saber se recolher.
Se proteger.
Se priorizar.
