Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras

Voltar Para Onde Eu Disse Que Nunca Mais Voltaria

A vida tem seus próprios caminhos para nos ensinar.

Ela nos observa quando fechamos portas com força demais.

Ela nos escuta quando juramos que “nunca mais” vamos olhar para trás.

E, sem pressa, nos conduz de volta ao mesmo lugar — não para castigar, mas para curar.

Nessa última semana, me vi dependente de pessoas do meu passado.

Gente que eu mesma rejeitei, desprezei, ou simplesmente abandonei ao longo da vida.

E foi exatamente esse lugar, essas pessoas, que se tornaram meu abrigo quando tudo o que eu imaginava sólido se desfez.

Os amigos e familiares que eu esperei que estivessem lá… fecharam as portas.

E aqueles que, um dia, eu deixei para trás, me acolheram sem hesitar.

Não foi confortável.

Foi um soco no ego.

Mas, ao mesmo tempo, foi um convite à humildade mais verdadeira.

Voltei à casa que abandonei.

Lá estavam, ainda, marcas do que eu fui — e do que eu evitei encarar.

Limpei, arrumei, organizei. Não só as coisas.

Organizei memórias, dores, desculpas que eu nunca tinha dito em voz alta.

Cada objeto jogado fora era um símbolo de um peso que eu carregava sem perceber.

Foi um confronto com o passado, sim.

Mas, acima de tudo, foi uma oportunidade rara:

A de voltar ao ponto onde eu havia parado.

De corrigir rotas.

De fechar ciclos do jeito certo — com presença, com respeito, com verdade.

Percebi que, às vezes, não é o mundo que nos vira as costas.

É o reflexo das escolhas que fizemos.

Mas a vida, generosa, nos dá novas chances.

Não para fingirmos que nada aconteceu.

Mas para fazermos diferente.

Essa experiência me trouxe um tipo de cura que não vem com palavras bonitas.

Vem com mãos sujas de poeira.

Com abraços que não pedem desculpas, mas oferecem reconciliação pelo gesto.

Com silêncios que dizem mais do que discussões antigas.

Eu precisei voltar.

E voltando, resgatei partes de mim que eu havia deixado espalhadas por orgulho, por imaturidade, por medo.

Hoje, entendo que esse retorno não foi um retrocesso.

Foi um resgate.

Voltar foi o primeiro passo para, finalmente, seguir em frente — de verdade.

A vida é sábia.

Ela não desperdiça cenários, nem pessoas, nem dores.

Ela apenas espera o momento certo para nos fazer enxergar o que antes negávamos ver.

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