Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras

Quando julgamos com dureza, revelamos muito mais sobre nós do que sobre o outro

Julgar é fácil.

Basta olhar de longe, sem contexto, sem profundidade, e disparar uma opinião.

É um gesto rápido. Automático.

Quase confortável.

O difícil é segurar o impulso de achar que sabemos tudo sobre o outro.

O julgamento severo vem da ilusão de superioridade.

É como se, por um momento, acreditar que o erro do outro nos tornasse melhores, mais certos, mais certos de nós mesmos.

Mas a verdade é amarga:

Julgamos com mais dureza justamente aquilo que, lá no fundo, também nos assusta.

Seja porque já erramos parecido.

Seja porque temos medo de errar igual.

É muito mais fácil condenar de fora do que encarar dentro de si as próprias fragilidades.

Por trás de um julgamento cruel, há um ego carente, uma dor não resolvida, uma tentativa de se distanciar daquilo que é humano:

A imperfeição.

Julgar é um mecanismo de defesa.

Mas uma defesa que machuca.

Porque ninguém sabe a história inteira do outro.

Ninguém sabe o peso que aquela pessoa carrega.

As feridas invisíveis.

Os motivos não ditos.

E mesmo que soubéssemos — quem somos nós para medir a dor alheia?

Isso não significa ser cego aos erros.

Não significa aceitar abusos, nem ser conivente.

Mas há uma enorme diferença entre ter discernimento e agir com crueldade.

Entre estabelecer limites e se colocar num pedestal de juízes implacáveis.

A vida é cíclica.

Hoje você julga. Amanhã pode ser você no lugar do julgado.

E o que vai doer mais não será o erro em si — mas a solidão do não acolhimento.

Ser menos severo com o outro é também um exercício de compaixão por si mesmo.

É reconhecer que todos estamos tentando. Uns mais conscientes, outros ainda perdidos.

Julgar com dureza não resolve.

Mas compreender transforma.

Antes de atirar uma pedra, pense:

Quantas pedras você já teve que carregar calado?

A empatia não passa pano para erros.

Ela só tira o peso do ódio desnecessário.

No fim, é simples:

Você não precisa amar, nem concordar.

Mas pode escolher não ferir ainda mais.

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