Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras

Amar alguém que se afoga na própria negação

Poucas dores são tão silenciosas quanto amar alguém que tem um problema com álcool — e não reconhece.

Ou reconhece, mas finge controlar.

Diz que “não é tão grave assim”.

Que “poderia parar se quisesse”.

Mas, no fundo, a bebida já tomou as rédeas.

Enquanto essa pessoa acredita ter o controle, quem ama vê, dia após dia, como isso não é verdade.

E junto com essa mentira vem um rastro de feridas:

Desconfiança. Medo. Vergonha. Exaustão.

O álcool não destrói de repente.

Ele corrói aos poucos:

Na esperança que se quebra.

Nas promessas repetidas e não cumpridas.

Nas discussões que nunca deveriam existir.

No silêncio pesado que cobre tudo depois.

Você tenta ajudar. Fala. Implora.

Se desgasta tentando salvar.

Mas esbarra na parede mais cruel:

Ninguém se salva sem querer ser salvo.

E no meio disso, você também se perde.

Se acostuma a pisar em ovos.

A se proteger de quem, no fundo, você só queria amar em paz.

É difícil admitir, mas amar quem se destrói — e não quer mudar — é viver num luto constante.

Luto pela pessoa que você sabe que existe por trás da dependência.

Luto pela relação que poderia ser, mas não é.

Cuidar de si, nesse cenário, parece egoísmo.

Mas, na verdade, é sobrevivência.

Porque você merece viver uma vida sem carregar o peso da escolha que o outro insiste em não fazer.

O amor não acaba. Mas precisa mudar de forma.

Precisa se proteger.

Precisa reconhecer que não se salva ninguém que escolhe se afundar.

A dor existe.

Mas você não precisa se afogar junto.

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