Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras

Conviver com um acumulador é viver entre coisas e ausências

Eu fui casada durante dez anos com uma pessoa que acumulava. Não só objetos, mas culpas, medos, feridas que nunca eram mexidas.

As coisas iam tomando espaço. Primeiro em gavetas, depois nos cômodos, até que ocupavam a casa inteira. Mas o que mais sufocava não era o excesso de tralha. Era o silêncio. O peso das emoções que ninguém tocava.

Acumular é uma forma de tentar preencher vazios. É guardar fora o que não se sabe resolver dentro. Cada caixa fechada era um pedaço de dor escondida. E a gente vai se adaptando. Se apertando. Fingindo que está tudo bem, enquanto tropeça todos os dias no que não consegue mais ignorar.

Não é fácil amar alguém assim. Porque o acúmulo não é só físico — ele transborda para as relações. As conversas ficam soterradas. Os sentimentos não têm mais lugar para respirar. E um dia você percebe que, sem querer, começou a acumular também: frustração, solidão, pequenas desistências de si mesma.

Sair dessa realidade não foi simples. Porque não se trata só de mudar de casa. Trata-se de recuperar espaço dentro de você. De reaprender a conviver com o essencial.

Deixar ir, desapegar, abrir espaço — tudo isso é um processo mais interno do que externo.

Conviver com um acumulador me ensinou que excesso não é riqueza.

Excesso é peso.

E que, no fim das contas, a gente precisa de muito menos do que imagina para viver com leveza.

Hoje, cada canto vazio da minha casa é um respiro.

Cada coisa que eu escolho manter tem um porquê.

E, principalmente, eu aprendi a não acumular mais o que me afasta de mim mesma.

Deixe um comentário